14 de jun. de 2009

Lembranças

Outro dia estava arrumando o quarto e encontrei minha caixa de cartas. Não quis abrir.

Sempre achei isso muito tentador, mas sempre estive um passo a frente da tentação. Até que hoje ela me alcançou! Muitas lembranças, boas e ruins.

Uma delas, escrita há muitos anos, me tocou muito. Não era uma carta recebida, mas uma deixada de enviar. Era uma carta de amor... um trecho me chamou muita atenção, não sei exatamente o porquê, pois hoje em dia mais me parece uma dessas cartas cafonas que a gente escreve quando se está apaixonada. Talvez seja exatamente por isso que ela sempre permaneceu comigo, nessa caixa abandonada... Aí vai:

"... Você pode ser o rosto que eu não esquecerei, um traço de prazer ou de arrependimento, talvez meu tesouro ou o preço que tenho que pagar. Você pode ser a música que o verão nos cantou, talvez o frescor que o outono deixou, ou mesmo centenas de outras coisas..."

"... No espaço de um dia, você pode ser a bela ou a fera, a fartura ou a fome. A cada dia pode se transformar num paraíso ou num inferno. Você pode ser o espelho do meu sonho, um sorriso refletido na água. Também pode não ser o que parece ser dentro dessa sua 'concha'..."

"... Você sempre parece tão feliz na multidão, com os olhos tão pessoais ou tão orgulhosos... mas que não podem ser vistos quando choram..."

"... Pode ser o amor que não se espere que dure! Pode vir para mim como sombras do passado, que me lembrarei até o dia em que eu morrer. Você deve ser a razão para que eu sobreviva, o motivo de eu estar viva... de quem eu cuidarei na alegria e na tristeza. Eu acolherei o seu riso e suas lágrimas e os guardarei como minha peça mais rara! Por onde você for eu tenho que estar..."

Michelle Franco.

Quem é você?

Afinal, quem é você?

Não estou perguntando o que você é ou o que você faz. Quero saber o tem aí dentro que te transforma nessa pessoa? Quais são os seus pensamentos mais secretos, os desejos mais íntimos, as confissões mais devastadoras?

Não me interessa uma verdade inventada, mais apropriada, aquela do seu conto de fadas. Eu preciso da verdade, nua, ainda que doa, em você ou em mim.

Me acha invasiva? Talvez. Mas se revelar talvez seja o mínimo e a única coisa real que você poderia me oferecer. Você! Sem cautela, sem medo, sem pudor. Você por inteiro.

Você apareceu na minha vida por acaso e invadiu o meu destino, me impedindo de continuar sendo a mesma. Ok, a verdade é que fui eu quem apareceu na sua vida, sem pedir licença, você diria. Confesso!

Mas foi você quem se envolveu, quem fantasiou, quem se encantou. Sozinho! Ou talvez com a participação de algumas das personalidades que você deve manter para tornar sua vida possível, sem culpa!

Com que direito você resolve se confessar e tentar despertar sentimentos que você gostaria mas não pode retribuir? Pelo menos não da maneira correta de ser...

Com que direito você transfere a responsabilidade da escolha pra mim, que nem escolha tenho?

Por que me faz sonhar se você não pode me fazer tirar os pés do chão?

Você domina meus pensamentos, revira meus sentimentos, aguça os meus sentidos, me envolve com sutileza, me fascina com delicadezas, mas me obriga a viver numa realidade na qual você não pode nem deveria existir!

Talvez não possa te culpar, afinal, eu permiti! E, além disso, você é a maior vítima da sua ilusão.

Então me diz: como você pode achar justo querer me conhecer, me analisar e descobrir aquilo que nem eu mesma consigo saber de mim, se você mesmo não tem coragem de me mostrar toda a sua realidade!

Acho que nem quero mais nada disso, porque nada seria verdadeiramente suficiente.

E é por isso que eu garanto que de alguma forma eu vou apagar você de mim. Vai ser fácil, pois você nunca esteve realmente em mim. Mas eu sei que estive aí em você, e por muito tempo permanecerei, porque você precisa de mim para sonhar e se sentir vivo!